As Cartas de Allan Kardec / Revista Espírita (1863)

As Cartas de Allan Kardec / Revista Espírita (1863)

O Poder da Vontade sobre as Paixões

(Extrato dos trabalhos da Sociedade Espírita de Paris)

Um rapaz de vinte e três anos, o Sr. A…, de Paris, que se iniciou no Espiritismo há apenas dois meses, captou o seu alcance com tal rapidez que, sem nada ter visto, o aceitou em todas as suas consequências morais. Dirão que isto não é de admirar da parte de um jovem, e não prova senão uma coisa: a leviandade e um entusiasmo irrefletido. Seja. Mas prossigamos. Esse moço irrefletido, como ele próprio reconhece, tinha um grande número de defeitos, dos quais o mais saliente era uma irresistível predisposição para a cólera, desde a infância. Pela menor contrariedade, pelas causas mais fúteis, quando entrava em casa e não encontrava imediatamente o que queria; se uma coisa não estivesse no seu lugar habitual; se o que tivesse pedido não estivesse pronto em um minuto, enfurecia-se e tudo quebrava. Era a tal ponto que um dia, num paroxismo de cólera, explodindo contra a mãe, disse-lhe: “Vai-te embora, ou eu te mato!” Depois, esgotado pela superexcitação, caía sem consciência. Acrescente-se que nem os conselhos dos pais, nem as exortações da religião tinham podido vencer esse caráter indomável, compensado, aliás, por uma grande inteligência, uma instrução cuidadosa e os mais nobres sentimentos.

Dir-se-á que é o efeito de um temperamento bilioso-sanguíneo-nervoso; resultado do organismo e, por conseguinte, arrastamento irresistível. Resulta desse sistema que se, em seus desvarios, tivesse cometido um assassinato, seria perfeitamente desculpável, porque teria resultado de um excesso de bile. Resulta ainda que, a menos que modificasse o temperamento, que mudasse o estado normal do fígado e dos nervos, esse rapaz estaria predestinado a todas as funestas consequências da cólera.

– Conheceis um remédio para tal estado patológico? – Não, nenhum, a não ser que, com o tempo, a idade possa atenuar a abundância de secreções mórbidas. – Pois bem! o que não pode a Ciência, o Espiritismo o faz, não pela ação do tempo e em consequência de um esforço contínuo, mas instantaneamente. Bastaram alguns dias para fazer desse jovem um ser meigo e paciente. A certeza adquirida da vida futura, o conhecimento do objetivo da vida terrestre, o sentimento da dignidade do homem, revelada pelo livre-arbítrio, que o coloca acima do animal, a responsabilidade daí decorrente, o pensamento de que a maior parte dos males terrenos são a consequência de nossos atos, todas essas ideias, hauridas num estudo sério do Espiritismo, produziram em seu cérebro uma súbita revolução; pareceu-lhe que um véu foi retirado de seus olhos; a vida se lhe apresentou sob outra face. Então, certo de que tinha em si um ser inteligente, independente da matéria, disse de si para si: “Este ser deve ter uma vontade, ao passo que a matéria não a tem; portanto, ele pode dominar a matéria.” Daí este outro raciocínio: “O resultado de minha cólera é inútil, já que não estou mais adiantado. Ela me produz mal e nenhum bem me dá em compensação; mais ainda: poderia impelir-me a atos repreensíveis, criminosos talvez.” – Ele quis vencer, e venceu. Desde então, mil ocasiões se apresentaram que, antes, o teriam enfurecido e ante as quais ele ficou impassível e indiferente, para grande estupefação de sua mãe. Sentia o sangue ferver e subir à cabeça, mas, por sua vontade, o fazia refluir, forçando-o a descer.
Um milagre não teria feito melhor. Mas o Espiritismo fez muitos outros, que nossa revista não bastaria para registrar, se quiséssemos relatar todos os que são do nosso conhecimento pessoal, atinentes a reformas morais dos mais inveterados hábitos. Citamos este como um exemplo notável do poder da vontade e, também, porque levanta um importante problema, que só o Espiritismo pode resolver.

O Sr. A… nos perguntava a respeito se seu Espírito era responsável por sua violência, ou se apenas sofria a influência da matéria. Eis a nossa resposta:

Vosso Espírito é de tal modo responsável que, quando o quisestes seriamente, controlastes o movimento sanguíneo. Assim, se o tivésseis querido antes, os acessos teriam cessado mais cedo e não teríeis ameaçado vossa mãe. Além disso, quem é que se encoleriza? O corpo ou o Espírito? Se os acessos viessem sem motivo, poder-se-ia crer que eram provocados pelo afluxo sanguíneo; mas, fútil ou não, tinham por causa uma contrariedade. Ora, evidentemente não era o corpo que estava contrariado, mas o Espírito, muito susceptível. Contrariado, o Espírito reagia sobre um sistema orgânico irritável, que não teria sido provocado se tivesse ficado em repouso. Façamos uma comparação. Tendes um cavalo fogoso; se souberdes governá-lo, ele se submete; se o maltratardes, ele se enfurece e vos derruba. De quem a falta: vossa ou do cavalo?
Para mim, é evidente que vosso Espírito é naturalmente irascível; mas como cada um traz consigo o seu pecado original, isto é, um resto das antigas inclinações, não é menos evidente que, em vossa precedente existência, tivésseis sido um homem de extrema violência, e que provavelmente tereis pago muito caro, talvez com a própria vida. Na erraticidade, vossas outras boas qualidades vos ajudaram a compreender vossos erros; tomastes a resolução de vos vencer e, para isto, lutar em uma nova existência. Mas se tivésseis escolhido um corpo débil e linfático, vosso Espírito, não encontrando nenhuma dificuldade, nada teria ganhado, o que para vós significaria ter de recomeçar. Eis por que escolhestes um corpo bilioso, a fim de ter o mérito da luta. Agora a vitória está alcançada. Vencestes o inimigo do vosso repouso e nada pode entravar o livre exercício de vossas boas qualidades. Quanto à facilidade com a qual aceitastes e compreendestes o Espiritismo, ela se explica pela mesma causa: éreis espírita há muito tempo; esta crença era inata em vós e o materialismo foi apenas o resultado da falsa direção dada às vossas ideias. Abafada inicialmente, a ideia espírita permaneceu em estado latente e bastou uma centelha para a despertar. Bendizei, pois, a Providência que permitiu que esta centelha chegasse em boa hora para deter uma inclinação que talvez vos tivesse causado amargos desgostos, ao passo que vos resta uma longa carreira a percorrer na estrada do bem.

Todas as filosofias se chocaram contra esses mistérios da vida humana, que pareciam insondáveis até que o Espiritismo lhes trouxe o seu facho. Em presença de tais fatos, ainda se pode perguntar para que serve ele? Estamos no direito de bem augurar o futuro moral da Humanidade quando ele for compreendido e praticado por todo o mundo.

Fonte: Allan Kardec. Revista Espírita, julho de 1863.

Causas da Incredulidade

Senhor Allan Kardec,

Li com muita desconfiança, direi mesmo, com sentimento de incredulidade, vossas primeiras publicações a respeito do Espiritismo. Mais tarde as reli com bastante atenção, bem como as vossas outras publicações, à medida que apareciam. Devo dizer sem rodeios que eu pertencia à escola materialista. A razão? É que de todas as seitas filosóficas ou religiosas era a mais tolerante, a única que não se entregava a demonstrações de força para a defesa de um Deus que disse pela boca do Mestre: “Os meus discípulos serão reconhecidos por muito se amarem” porque a maioria dos guias que a sociedade oferece para inculcar nos jovens as ideias de moral e de religião antes pareciam destinados a lançar o pânico nas almas do que a lhes ensinar a se conduzirem bem, a esperar uma recompensa por seus sofrimentos, uma compensação por suas aflições. Assim, os materialistas de todas as épocas, e principalmente os filósofos do século passado, a maioria dos quais ilustraram as artes e as ciências, aumentaram o número de seus prosélitos, à medida que a instrução emancipava as criaturas. Preferiu-se o nada aos tormentos eternos.

É natural que o infeliz compare. Se a comparação lhe for desvantajosa, ele duvidará de tudo. Efetivamente, quando se vê o vício na opulência e a virtude na miséria, se não se tiver uma doutrina raciocinada e provada pelos fatos, o desespero apoderar-se-á da alma e se perguntará que é o que se ganha em ser virtuoso, atribuindo-se os escrúpulos da consciência aos preconceitos e aos erros de uma primeira educação.

Ignorando qual o uso que fareis de minha carta, mas, no caso, vos deixando inteira liberdade, penso que não será inútil dar a conhecer as causas que operaram a minha conversão.

Eu tinha ouvido falar vagamente do magnetismo. Uns o consideravam coisa séria e real, enquanto outros achavam que era uma tolice. Assim, não perdi tempo com isso. Mais tarde ouvi falar por toda a parte das mesas girantes, falantes, etc.; mas cada um empregava a respeito a mesma linguagem que sobre o magnetismo, o que fez que também não me interessasse. Todavia, por uma circunstância inteiramente imprevista, tive à minha disposição o Tratado de Magnetismo e de Sonambulismo, do Sr. AubinGauthier. Li essa obra com uma disposição de espírito em constante rebeldia ao seu conteúdo, tão extraordinário e mesmo impossível me parecia o que ali era explicado. Contudo, tendo chegado à página em que aquele homem honesto diz: “Não queremos que nos creiam sob palavra; experimentem, de acordo com os princípios que indicamos e, se reconhecerem como certo aquilo que antecipamos, tudo quanto pedimos é que o façam de boa-fé e que se entendam mutuamente.”

Esta linguagem de uma certeza raciocinada, que só o homem prático pode ter, paralisou toda a minha efervescência, submeteu meu espírito à reflexão e o decidiu a experimentar. Inicialmente operei com o filho de um de meus parentes, de cerca de dezesseis anos, e logrei resultados que ultrapassaram as minhas expectativas. Será difícil dizer da perturbação que se apoderou de mim; eu desconfiava de mim mesmo e me perguntava se não era vítima daquele rapazola que, havendo adivinhado as minhas intenções, entregava-se a macaquices e simulações para em seguida zombar de mim. Para me assegurar, tomei certas precauções indicadas e mandei chamar um magnetizador. Então me convenci de que o jovem estava realmente sob influência magnética. Esse primeiro ensaio foi tão estimulante que me entreguei a essa ciência, cujos fenômenos tive ocasião de observar e, ao mesmo tempo, constatar a existência do agente invisível que os produzia.

Que agente é esse? quem o dirige? qual a sua essência? por que não é visível? São perguntas às quais não posso responder, mas que me levaram a ler o que foi escrito pró e contra as mesas falantes, porque – dizia de mim para mim – se um agente invisível podia produzir os efeitos de que eu era testemunha, outro agente, ou talvez o mesmo, poderia muito bem produzir outros. Conclui, assim, que a coisa era possível; agora creio, embora ainda nada tenha visto.

Por seus efeitos, essas coisas são tão surpreendentes quanto o Espiritismo, aliás muito fracamente combatido pelos críticos, de maneira a não alterar nenhuma convicção. Mas o que o caracteriza de modo diverso dos outros efeitos materiais, são os efeitos morais. Para mim é evidente que todo homem que se ocupa seriamente do magnetismo, se for bom, tornar-se-á melhor; se for mau, forçosamente modificará o seu caráter. Outrora a esperança era uma corda em que se penduravam os infelizes; com o Espiritismo a esperança é um consolo, os sofrimentos uma expiação e o Espírito, em vez de se rebelar contra os decretos da Providência, suporta pacientemente suas misérias, não maldiz a Deus nem aos homens e marcha sempre para a perfeição. Se eu tivesse sido alimentado por essas ideias, por certo não teria passado pela escola do materialismo, de onde me sinto feliz por ter saído.

Como vedes, senhor, por mais rudes tenham sido os combates a que me entreguei, minha conversão se operou e sois um daqueles que para ela mais contribuíram. Registrai-a em vossas fichas, porque não será uma das menores e, doravante, dignai-vos contar-me no número dos vossos adeptos.

Gauzy,
Antigo Oficial, 23, rue Saint-Louis, Batignolles (Paris)

Observação – Esta conversão é mais um exemplo da causa mais comum de incredulidade. Enquanto forem dadas como verdades absolutas coisas que a razão repele, haverá incrédulos e materialistas. Para fazer crer, é necessário fazer compreender. Nosso século assim o quer e é preciso marchar com o século se não se quiser sucumbir. Mas para fazer compreender, é preciso que tudo seja lógico: princípios e consequências. O Sr. Gauzy enuncia uma grande verdade ao dizer que o homem prefere a ideia do nada, que põe fim aos seus sofrimentos, à perspectiva das torturas sem-fim, às quais é tão difícil escapar. Assim, procura gozar o mais possível enquanto está na Terra. Perguntai a um homem que sofre muito o que ele prefere: morrer imediatamente ou viver na dor cinquenta anos; sua escolha não será duvidosa. Quem muito quer provar nada prova; à força de exagerar as penas, acaba-se por gerar a descrença. Temos certeza de que há muita gente que concorda conosco, dizendo que a doutrina do diabo e das penas eternas fez o maior número dos materialistas; que a de um Deus que criou seres para destinar a imensa maioria deles a torturas sem esperança, por faltas temporárias, fez o maior número dos ateus.

Allan Kardec. Revista Espírita, maio de 1862.

Resposta a uma Pergunta sobre o Espiritismo, do Ponto de Vista Religioso

A pergunta que se segue nos foi enviada por uma pessoa de Bordeaux, a quem não temos a honra de conhecer, e sua resposta será dada pela Revista, tendo em vista a instrução de todos.

“Li numa de vossas obras: ‘O Espiritismo não se dirige àqueles que têm uma fé religiosa qualquer, com vista a dissuadi-los, e aos quais essa fé basta à sua razão e à sua consciência, mas à numerosa categoria dos indecisos, dos incrédulos, etc.’

“E por que não? O Espiritismo, que é a verdade, não deveria dirigir-se a todos? a todos os que estão em erro? Ora, os que creem numa religião qualquer, protestante, judaica, católica ou outra qualquer, não estão em erro? Indubitavelmente, porque as diversas religiões hoje professadas dão como verdades incontestáveis e nos obrigam a crer em coisas completamente falsas ou, pelo menos, em coisas que podem até vir de fontes verdadeiras, mas falseadas em sua interpretação. Se está provado que as penas são apenas temporárias – e Deus sabe se é um leve erro confundir o temporário com o eterno – que o fogo do inferno é uma ficção e que, se em vez de uma criação em seis dias, trata-se de milhões de séculos, etc.; se tudo isto está provado, digo eu, partindo do princípio de que a verdade é una, as crenças oriundas de uma interpretação tão falsa desses dogmas não são nem mais nem menos do que falsas, pois uma coisa é ou não é; não há meio-termo.

“Por que, então, o Espiritismo não se dirige também a todos os que acreditam em absurdos, para os dissuadir, como aos que em nada creem ou que duvidam, etc?”

Aproveitamos a oportunidade da carta, da qual extraímos as passagens acima, para lembrar, uma vez mais, o objetivo essencial do Espiritismo, sobre o qual o autor da carta não parece bastante edificado.
Pelas provas patentes que dá da existência da alma e da vida futura, base de todas as religiões, o Espiritismo é a negação do materialismo e, por conseguinte, se dirige aos que negam ou duvidam. É bem evidente que os que não creem em Deus e na alma não são católicos, nem judeus, nem protestantes, seja qual for a religião em que tiverem nascido; não seriam, sequer, maometanos ou budistas. Ora, pela evidência dos fatos, são levados a crer na vida futura, com todas as suas consequências morais; são livres para adotar, mais tarde, o culto que melhor lhes convenha à razão ou à consciência. Mas aí se detém o papel do Espiritismo; ele é o responsável por três quartos do caminho; ajuda a transpor o passo mais difícil – o da incredulidade. Compete aos outros fazer o resto.

“Mas” – poderá dizer o autor da carta – “e se nenhum culto me convier?” Muito bem! ficai então como estais. Aí o Espiritismo nada pode. Ele não se encarrega de vos fazer abraçar um culto à força, nem de discutir para vós o valor intrínseco dos dogmas de cada um: deixa isto à vossa consciência. Se o que o Espiritismo dá não vos basta, buscai, entre todas as filosofias existentes, uma doutrina que melhor satisfaça às vossas aspirações.

Os incrédulos e os indecisos formam uma categoria muito numerosa. Quando o Espiritismo diz que não se dirige aos que têm uma fé qualquer, e aos quais esta é bastante, quer significar que não se impõe a ninguém e não violenta consciência alguma.

Dirigindo-se aos incrédulos, chega a convencê-los por meios próprios, pelos raciocínios que sabe terem acesso à sua razão, porquanto os outros foram impotentes. Numa palavra, tem o seu método, com o qual obtém, diariamente, belíssimos resultados; mas não tem uma doutrina secreta. Não diz a uns: abri os ouvidos, e a outros: fechai-os. A todos fala pelos seus escritos e cada um é livre de adotar ou rejeitar sua maneira de encarar as coisas. Desse modo, faz crentes fervorosos dos que eram incrédulos. É tudo o que ele quer. Àquele que dissesse: “Tenho minha fé e não quero mudá-la; creio na eternidade absoluta das penas, nas chamas do inferno e nos demônios; continuo até crendo que é o Sol que gira, porque a Bíblia o diz, e creio ser este o preço de minha salvação”, responde o Espiritismo: “Conservai as vossas crenças,

já que elas vos convêm; ninguém procura vos impor outra; eu não me dirijo a vós, pois nada quereis de mim.” E nisto ele é fiel ao seu princípio de respeitar a liberdade de consciência. Se alguns se julgam em erro, são livres para buscar a luz, que brilha para todos; os que se julgam certos têm liberdade de desviar o olhar.
Mais uma vez, o Espiritismo tem um objetivo, do qual não quer nem se deve afastar; sabe o caminho que a ele deve conduzir e o seguirá, sem se desviar pelas sugestões dos impacientes. Cada coisa vem a seu tempo; querer ir muito depressa é, muitas vezes, recuar ao invés de avançar.

Ainda duas palavras ao autor da carta. Parece-nos que ele fez uma falsa aplicação do princípio de que a verdade é una, concluindo daí que certos dogmas, como o das penas futuras e da Criação, receberam uma interpretação errada, devendo, pois, tudo ser falso na religião. Não vemos todos os dias as próprias ciências positivas reconhecerem certos erros de detalhes, sem que, por isso, a Ciência esteja radicalmente errada? A Igreja não se alinhou com a Ciência a propósito de certas crenças de que outrora fazia artigos de fé? Não reconhece hoje a lei do movimento da Terra e dos períodos geológicos da Criação, que havia condenado como heresias? Quanto às chamas do inferno, toda a alta teologia reconhece que é uma imagem e que por ela se deve entender um fogo moral e não material. Sobre vários outros pontos as doutrinas são também menos absolutas do que antigamente, donde se pode concluir que um dia, cedendo à evidência dos fatos e das provas materiais, ela compreenderá a necessidade de uma interpretação em harmonia com as leis da Natureza, sobre alguns pontos ainda controvertidos; porque nenhuma crença poderia racionalmente prevalecer contra essas leis. Deus não pode contradizer-se estabelecendo dogmas contrários às suas leis eternas e imutáveis, e o homem não pode pretender colocar-se acima de Deus, decretando a nulidade dessas leis. Ora, a Igreja, que compreende esta verdade para certas coisas, compreendê-la-á também para as outras, notadamente no que concerne ao Espiritismo, em todos os pontos fundado sobre as leis da Natureza, ainda mal compreendidas, mas que se compreende cada vez melhor à medida que os dias passam.
Não se deve ter pressa em rejeitar tudo, apenas porque certas partes são obscuras ou defeituosas; a esse propósito, cremos útil lembrar a fábula: A Macaca, o Macaco e a Noz.

Allan Kardec. Revista Espírita, janeiro 1863.